sábado, 17 de julho de 2010

A Dama

Então ali estava eu, parado às margens do rio, olhando seus cabelos brilhantes como ouro, que escorriam por suas costas, se despejavam sobre seus ombros, e sem timidez alguma deixava que as fibras da escova esmeralda brincassem entre eles.
Sua voz me inebriava, uma voz doce que até mesmo quando alcançava as notas mais agudas se igualava à suavidade de uma camerata de violinos, até mesmo mais belo. As águas do rio e os sons da floresta se calam para que sua melodia não fosse interrompida por nada.
Já estou parado aqui a um bom tempo, talvez à uma hora. Não consigo arrancar meus pés do chão já estão enraizados na terra como um enorme pinheiro. Sua doce melodia cativa meus ouvidos, a cada nota aguda meu coração dispara e a cada nota grave minha vista entorpece, meus músculos relaxam, minhas mãos adormecem e minha alma quase se esquece de sua morada.
A dama sobre a pedra gira lentamente sua cabeça para trás, e me invade com seu olhar penetrante. A sensualidade mora em seus olhos e derramam-se por seu corpo. Ela estende seu braço para o lado e vira para si um espelho, feito do mais belo cristal que já vi. Com ornamentos rebuscados e detalhes florais diversos. Ela sorri, e rapidamente volta os olhares para mim com um ar de superioridade.
E meu corpo? Ainda não responde e meus ouvidos já não se recordam de nenhum outro som que já tenha ouvido a não ser desta voz maravilhosa.
A mulher segura o espelho na palma de suas mãos, o oferece a mim, e eu não movo um fio de cabelo. Ela então sorri e vira o espelho para mim. Minha visão desaparece, tudo o que vejo é um mar de luz. O espelho é perfeito e brilha como o próprio sol.
Permaneço cego por alguns instantes até uma suave brisa tocar o meu rosto, ela está de pé bem na minha frente, e seus cabelos escondem seios.
Com suavidade ela toca meu rosto, e passa a mão por minha face até ficar com um único dedo em meu queixo.
Olha-me com curiosidade e cobiça. Seus lábios vermelhos como uma suculenta maçã, brilham e ficam entreabertos de satisfação.
A dama loira começa a andar ao meu redor.
Minha mente falha, meu coração dispara, a respiração se acovarda, meus músculos desistem.
Suas mãos deslizam por meu pescoço e passeiam até meus ombros. Sinto sua respiração próxima à minha nuca que faz minha espinha dar um breve sinal de vida.
A dama dos cabelos de ouro segura meus dois braços sem vida e me abraça deitando sua cabeça em minhas costas, me fazendo sentir a vibração de suas cordas vocais diretamente em meu coação.
Sinto seus cabelos sendo levados ao meu rosto pelo vento. Fazendo cócegas em meu pescoço.
Suas mãos deslizam por meu corpo, ela se afasta, anda ao meu redor novamente e leva as mãos ao meu rosto. Olha fixamente em meus olhos, e começa a andar para trás me puxando com as pontas dos dedos.
Meus pés hipnotizados por seus olhos azuis como o mar obedecem ao comando de seus dedos e ressuscitam em passos embriagados, e nenhum outro músculo protesta sobre esta decisão. O sorriso encantador tem um ar de... algo mais... Sensualidade, prazer e... O que ela quer? Sua voz faz com que eu deixe de ouvir até o bater de meu coração. Sua voz se eleva.
As águas do rio já tocam meus joelhos. A cada passo que dou mais vou descendo, e a água sobe e cobre cada vez mais... mas não passa dos joelhos da jovem.
Finalmente a alcanço, sem uma única vez realmente desejar isto. Ela parece mais alta, mas só porque não afundou um único centímetro. É como se eu estivesse ajoelhado a seus pés.
A mulher loira se senta, eu me deito em seu colo, sua voz embala um profundo sono, meus olhos vão se fechando e suas suaves mãos que antes penteavam os seus lindos cabelos, agora alisam os meus.
Estou quase fechando os olhos quando a música cessa. Durante alguns segundos fico catatônico. Então suas delicadas mãos... empurram minha cabeça para dentro do rio com uma força que eu nunca imaginava que ela tivesse.
Abro os olhos, e me vejo completamente dentro d'água, o rio é bem mais fundo que parecia. Agora dentro de sua morada, posso ver sua face!
Um longo vestido em farrapos, um olhar de ódio com a fúria de mil demônios, lágrimas de sangue brotam de seus olhos. Posso sentir o sentimento de traição que seu coração dilui nas águas do rio e as tornam escuras, se convertem em puro véu de desilusões passadas.
Sua boca que antes espalhava o mel, agora puxa com todas as forças do fundo de sua aprisionada alma o mais terrível grito de ódio que meu coração já sentiu.
Gélidas mãos agarram meus pés, olho para minhas pernas imóveis... dezenas mãos esqueléticas e desesperadas, tentam sair da prisão em que a dama loira as encarcerou. Um número incontável de homens que receberam o mesmo tratamento que eu.
Meus olhos gritam desesperados por compaixão.
Fico cansado, minhas mãos tentam inutilmente alcançar a superfície.
Minhas pernas desistem, meus braços caem, estou mais sonolento que nunca.
A dama chora, e sem abrir sua boca emite mais uma doce, porém triste melodia.
Espero ter acalmado seu sofrido coração...
Agora... Só peço que cante para mim vez ou outra...

3 comentários:

  1. Olá Douglas!
    Finalmente leio seu blog!
    E devo dizer: Que Evolução! Meu, tá mil vezes melhor! Você cresceu muito!!!
    Fiquei muito feliz! Continua! Não pare de escrever!

    Um beijão!

    Mari

    Ps: pareceu comentário de professora! Hahaha!

    ResponderExcluir
  2. Paiê!
    Ficou muito bom o texto.
    A lenda da Iara é fascinante, sempre gostei muito!
    É eu reconheci!

    De qualquer forma a contrução do texto ficou boa, a evolução dos momentos.

    Parabéns!

    ResponderExcluir